ARTIGO: Atenção em Saúde Mental no Município de São José

No Brasil, o tratamento das pessoas com transtornos mentais vem mudando substancialmente, principalmente a partir da institucionalização dos serviços com enfoque na atenção comunitária. O presente trabalho faz um resgate histórico da assistência à saúde mental no município catarinense de São José, destacando a atenção hospitalar e as mudanças nas formas de atendimento a pessoas com transtornos mentais no contexto da reforma psiquiátrica brasileira.

Como referenciar:

PEREIRA, Cristina Folster; CAPONI, Sandra. Atenção em Saúde Mental no Município de São José – SC. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, Florianópolis, v. 9, n. 22, p.113-123, 05 jul. 2017. Disponível em: <http://incubadora.periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/4389/5006>. Acesso em: 15 ago. 2017.

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Internação Psiquiátrica: Dúvidas frequentes

O comentário/dúvida mais frequente aqui no blog é sobre o tema internação: “Devo internar?”, “Como internar?”. Recebo também muitas perguntas sobre o IPq (Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina), antigo Colônia Santana.  Por este motivo, este post é dedicado ao tema internação.

http://ulbra-to.br/encena/uploads/

(hospital psiquiátrico juquery – são paulo)

 

Primeiramente é necessário esclarecer, QUANDO INTERNAR?

Na proposta da Política Nacional de Saúde Mental a partir dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica, a internação hospitalar deve ser o último recurso para o atendimento das necessidades das pessoas relacionadas ao sofrimento psíquico. Quando todos os recursos da linha de cuidado tiverem sido esgotados, o tempo de internação deve ser o mais breve possível objetivando estabilizar o quadro agudo em que o paciente se encontra. (Coord. Estadual de Saúde Mental/SC).

Uma pessoa precisará de uma internação quando todos os recursos extra-hospitalares (UBS, NASF, CAPS…) forem esgotados. Casos em que há risco real de vida é um exemplo. Assim, se o paciente tem ideação suicida com planejamento (pensa e planeja se matar) e nenhum familiar ou profissional consegue ficar 24 horas com esta pessoa, a internação pode ser a alternativa. Também pode ser alternativa aos casos de ideação e planejamento de homicídio, e/ou agressividade difícil de ser contida pelos familiares. E casos em que a pessoa com graves sintomas psicóticos (alucinações, delírios, agitação psicomotora, catatonia…) não se percebe doente e não aceita tratamento. Enfim, estes são alguns exemplos que talvez precisassem de internação.

O QUE FAZER nestes casos de emergência?

No SUS (Sistema Único de Saúde) quando há casos de Urgência e Emergência em Saúde Mental utiliza-se O SAMU, UPA 24 horas, Emergência de hospitais gerais, Unidade Básica de Saúde, dentre outros. Bom, isso é o que está em lei (Lei 10.216/2001), mas, na realidade nem sempre podemos contar com estes serviços. Muitos não estão preparados para tal demanda seja pelo preconceito ou falta de recursos e capacitações.

Contudo, se você é um familiar/cuidador e percebe-se em situação de emergência, pode sim procurar estes serviços. Para os pacientes que são acompanhados em CAPS, o familiar deve entrar em contato (com o CAPS) para informar o que está ocorrendo e receber as devidas orientações.

ONDE INTERNAR?

Quando não há mais alternativas que não a internação, os Leitos Psiquiátricos em Hospitais Gerais ou os Hospitais Especializados (Hospitais Psiquiátricos) são os locais para este tipo de tratamento.

Ainda são poucos os hospitais gerais com leitos psiquiátricos, mas são serviços que tendem a aumentar e substituir os hospitais psiquiátricos. Aqui temos uma lista destes hospitais em Santa Catarina: Hospitais SC

Para as cidades que não contam ainda com leitos psiquiátricos em hospital geral, a internação é realizada nos hospitais especializados. Aqui lista dos três hospitais psiquiátricos catarinenses: Hospitais Especializados.

Em todos os casos, o paciente passará pelo atendimento médico (psiquiatra de plantão da Instituição) que avaliará a real necessidade de internação.

Qual a DURAÇÃO DA INTERNAÇÃO? Será a nova moradia do paciente?

O tempo de internação será breve (dias), o objetivo é a estabilização da crise/risco. Ou seja, não será uma nova moradia, inclusive, por lei, estes serviços não podem ter caráter asilar.

Quando há necessidade de moradia falamos em Serviços Residenciais Terapêuticos que Constituem-se como alternativas de moradia para um grande contingente de pessoas que estão internadas há anos em hospitais psiquiátricos por não contarem com suporte adequado na comunidade. Além disso, essas residências podem servir de apoio a usuários de outros serviços de saúde mental, que não contem com suporte familiar e social suficientes para garantir espaço adequado de moradia. (fonte: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/120.pdf).

IPq (Antigo Hospital Colônia Santana)

Muitas pessoas me perguntam e comentam sobre este serviço, assim escreverei em outro post sobre o assunto. Por enquanto, você pode tirar algumas dúvidas em: http://www.falandosobreesquizofrenia.com.br/ipq-antigo-hospital-colonia-santana/

Indicação de Filmes atuais sobre Esquizofrenia

Pela primeira vez, indicarei filmes que não assisti por inteiro, devido não achá-los em suas versões completas, mesmo assim resolvi indicá-los pela atualidade e realidade destes. Pelos trailers, trechos e textos, pude perceber que era importante não deixá-los passar desapercebidos. Outro motivo de divulgação, é a possibilidade de alguém ajudar-me a encontrá-los.

Estreado em 11 de dezembro de 2014, em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Aracaju, depois de passar pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e vencer o prêmio de melhor filme na escolha do júri popular do Festival do Rio, o longa brasileiro O SENHOR DO LABIRINTO conta a história de Arthur Bispo do Rosário, interno da Colônia Juliano Moreira devido diagnóstico de Esquizofrenia Paranoide. Excluído nesta instituição psiquiátrica por quase 50 anos, Bispo produziu bordados e estandartes sem pretensões artísticas, mas crente de que cumpria uma missão divina. 

O filme é baseado no livro “Arthur Bispo do Rosario – O Senhor do Labirinto” (Editora Rocco) de Luciana Hidalgo, e tem direção de Geraldo Motta e codireção de Gisella Mello. O diretor e a escritora também são responsáveis pelo roteiro do longa-metragem de ficção.

Mais informações do filme em: Revista de Cinema – Uol e Clicrbs

Assista ao trailer e trechos do filme no canal do longa no YouTube

Outro filme é PARA-ME DE REPENTE O PENSAMENTO, de Jorge Pelicano, que estreou esta semana, dia 07 de maio, em Portugal. Trata-se de um documentário que apresenta uma visão pouco explorada sobre o mundo da doença mental através do olhar do ator Miguel Borges, o qual submergiu, durante três semanas, na realidade do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira (Porto) para a preparação e pesquisa de uma peça de teatro sobre a loucura.

A sinopse trazida pelo autor já demonstra o quanto interessante deve ser o documentário: 

Cafezinho, cigarrinho. Moedinha, outro cafezinho. Utentes vagueiam pelos corredores. Circulam sós. Esperam. Mais uma passa, um cigarro que morre em beata. Terapias que apelam aos sentidos. Rotinas que os puxam para a realidade. É a vida que se repete nos espaços de um hospital psiquiátrico. A lucidez e a loucura vivem juntas.
Do mundo exterior chega um ator que procura o seu personagem para uma peça de teatro, submergindo no mundo interior dos esquizofrênicos. Os utentes são parte do processo de construção do personagem. No meio da névoa o ator depara-se com um poema de Ângelo de Lima, alienado de condição.
O personagem de teatro nasce.
O cinema documenta.

Demais informações na página do filme: www.paramederepenteopensamento.com

Trailer e trechos no canal do Youtube

Holocausto Brasileiro: Genocídio 60 mil mortes no maior hospício do Brasil

O título acima é redaniela-arbex-holocausto-brasileiroferente ao livro da jornalista Daniela Arbex, lançado em 2013 pela editora Geração. O texto denuncia os abusos acontecidos no hospício de Barbacena através do relato dos próprios envolvidos: egressos e ex trabalhadores, assim como leva o leitor a compreender melhor o movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira. A veracidade dos relatos é confirmada com os nomes e sobrenomes reais de todos os informantes, fotos destes atuais e da época dos acontecimentos e também imagens dos documentos de identidade ou carteiras de trabalho.

A autora também descreve a vinda de Franco Baságlia – Psiquiatra responsável pela Reforma Psiquiátrica Italiana – e Michel Foucault – Respeitado Filósofo Francês – falando de suas influências ao nosso pais.

Daniela ArbexA autora tem uma narrativa fluida e simples, o que ajuda na leitura, no entanto não pode-se dizer que é um livro fácil de ler, pois é permeado de tristes histórias, infelizmente reais.

Aberto em 1903, o Hospício, conhecido por Colônia, era formado por 16 pavilhões projetados para atender 200 pessoas, contudo chegou a abrigar 5.000 internos, a maioria destes sequer sofria de algum transtorno mental… Não havendo camas para tanta gente a solução foi trocá-las por capim. colonia5

Entre os “tratamentos” oferecidos estavam a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro), ECT (eletroconvulsoterapia), ducha e água gelada. Coloco entre ” ” porque muitas vezes estes procedimentos eram utilizados como castigos/disciplinares.

Como consequência da super lotação, tratamento rudimentar e poucos funcionários (1 funcionário para mais de 100 pacientes) as mortes eram comuns. Estimam-se 16 falecimentos por dia, sendo que em 11 anos foram vendidos 1853 corpos para 17 eliane2_2faculdades.

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Após a leitura do livro não há como criticar o movimento da Reforma Psiquiátrica como fazem os principais representantes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A mudança foi e é necessária!

Ninguém está dizendo que a internação nunca será necessária, não sejamos ingênuos em achar isto, o que questiona-se é o local, tratamento e tempo para isto: Por que precisamos de um local específico aos “loucos”? Estas internações não podem ser feitas em leitos psiquiátricos (ou seja com pessoal capacitado) em hospitais gerais? Por que o tratamento é desumanizado? O enlouquecer nos torna bichos? Realmente precisa-se de semanas, meses ou até a vida inteira para tratar de uma crise? Digo crise, porque as internações deveriam ser sempre a última alternativa após esgotarem-se todos os recursos extra-hospitalares, e logo após a estabilização desta crise, a pessoa deveria retornar à família continuando com um tratamento ambulatorial.

Uma pessoa hipertensa precisa morar num hospital, ou é internada apenas se houver uma complicação cardiovascular? Com todas as doenças é assim, porque não com a esquizofrenia e outros transtornos mentais considerados graves? Em nome da razão? (como diria Pinel) ou em nome da psiquiatria amedrontada em perder seu poder, ou ainda em nome das pessoas ditas normais que preferem não lidar com o diferente?

Mas, deixo claro, não adianta fechar os leitos dos Institutos/hospitais de Psiquiatria (antigos hospícios) se não são abertos, na mesma proporção, serviços extra hospitalares (os CAPS e SRT, por exemplo) e leitos psiquiátricos em hospitais gerais.

Atualmente, Barbacena têm 28 Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) que beneficiam 160 egressos. Outros 177 pacientes asilares estão sob a guarda do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (antigo Colônia).

(Sumário e Prefácio do livro em pdf: Scan41 Scan42 Scan43 Scan44)

Reportagem sobre o Manicômio de Barbacena:

Documentário “Em nome da Razão”, gravado no interior do Colônia em 1979 pelo cineasta Helvécio Ratton:

Visite o Museu da Loucura:

Rua 14 de Agosto, s/n, Floresta, Barbacena, MG

Tel. (32) 3339-1611, chpb.nep@fhemig.mg.gov.br

Visitação – diariamente • 8:00h às 12:00h e 13:00h às 17:30h

 

  • Trazendo a reflexão para Santa Catarina: Nos dados de 2012 do Ministério da Saúde tínhamos 83 CAPS, 77 hospitais gerais com leitos psiquiátricos e apenas 4 SRT no estado! Verifique no link Saúde Mental em Dados 11 estes dados e compare com outras regiões do Brasil. 

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Escrito por Cristina Folster em 23 de março 2015

Dicas de filmes em Saúde Mental

Filmes “Dá Para Fazer” e “Um Estranho No Ninho” abordam o tema da loucura, estigma e Reforma Psiquiátrica.

Na década de 70 o sistema de saúde mental da Itália passa por uma reforma e os hospitais psiquiátricos dão lugar a tratamentos extra – hospitalares através da lei 180 de 13/05/78, esta conquista deve-se, principalmente, ao psiquiatra Franco Baságlia que via nos hospitais psiquiátricos a exclusão, violência e opressão através do controle/poder. Uma parte desta história é retratada no filme Dá para fazer (Si Puo Fare) do diretor Giulio Manfredonia. Lançado em 2008 com duração de 111 min, a trama gira em torno do encontro de um sindicalista, que defende suas ideias cooperativistas, e, um grupo de pessoas com transtornos mentais egressos de internações psiquiátricas. 

Nello (sindicalista) transforma uma cooperativa voltada ao trabalho assistencial em uma cooperativa voltada ao mercado (“fazendo muito esforço, pode ser útil para os outros e talvez se ganhe uma boa grana!”, concluiu sr. Fábio, um dos egressos), mostrando que todos têm potencial para tanto. Importante que Nello não decide por eles, para todas as questões uma assembleia é montada e decide-se por votação. A partir do conhecimento de cada um pensa-se num tipo de trabalho e, até mesmo aqueles que dizem não ter ideia alguma do que fazer são agradecidos por falarem e ajudarem na discussão, todas as outras ideias que surgem são confirmadas com a frase “dá pra fazer”. Com este estímulo e respeito – além de serem ouvidos e de não serem subestimados, são chamados de senhores e passam a ser sócios/donos da cooperativa – eles ficam animados e motivados ao trabalho. Após tentativas e erros (“Não desanimem! Sabem porque erramos? Porque fizemos! Só quem não faz não erra!” diz Nello aos sócios) aprendem uma profissão e se aperfeiçoam cada vez mais nesta.

O filme é divertido, emocionante e aprendemos muito com ele. Vale muito a pena ver!

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Outro filme que indico é Um estranho no ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest). Adaptação de um romance de Ken Kesey, conta a história de  Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um malandro que após ser preso, se finge de louco para ir para um hosptal psiquiátrico e assim esquivar-se a uma porção de trabalhos forçados na prisão. Lá ele começa a influenciar os outros internos instaurando uma reviravolta na clínica mesmo com a forte oposição da enfermeira Ratched.

Trailer do filme.

A obra ganhou o Oscar como melhor filme entre outros Oscar e premiações, levando19871834.jpg-r_160_240-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx a discussão das internações psiquiátricas para o mundo inteiro. Nesta trama a instituição é limpa, tem ótima estrutura, diversas terapias e profissionais. A enfermeira, por exemplo, simboliza o “bom profissional”, competente, calma… Assim a instituição é legitimada, pois faz tudo de acordo com o que dever ser. O filme critica o jogo de poder existentes naquelas relações, a violência não declarada. Vendo o filme podemos perceber que os internos foram desprovidos de suas identidades, não há possibilidade de escolhas, de ir e vir, até mesmo as roupas são despersonalizadas através dos uniformes. Aqueles com alguma força para o enfrentamento de tal situação são calado pelos castigos disfarçados de tratamento. Bom, isto não é particular da clínica apresentada pelo filme, é justamente o que acontece nos hospitais psiquiátricos de todo o mundo, que, em sua maioria, foram “melhorados” com reformas, mas continuam perpetuando a exclusão com internações desnecessárias e/ou prolongadas.

Direção: Milos Formam; Ano: 1975; Duração: 128 min. Filme completo emhttp://www.cinemailove.com.br/609.omundo.7917.eh.8526.belissimo.php

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Escrito por Cristina Folster, em 21 fev. 2015.